E quem emigrou sem querer?

Por João António

Capítulo XV

Querido pai,

A lição que levo deste Natal, por me recordar tanto de ti, é esta: não é medo da morte que a gente deve ter, é ter pena de morrer que a gente deve sentir.

Esta gente toda, tão feliz, à volta de uma mesa, o fogo-de-artifício, a interminável refeição, todos aqueles pratos a ir e a vir e toda a gente pronta a ajudar com o que quer que seja. Isto é do mais puro que há.

Esta noite jantei em casa do Fernando e da Francisca, mas já estou em casa. Acendi o lume e escrevo-te já hoje porque é a noite de Natal. É uma noite na qual sinto uma imensidão de saudades tuas e da mãe. Deviam ter-me arranjado um irmão para ainda hoje ter a cumplicidade destes momentos com alguém do meu sangue, seria engraçado.

A maior cumplicidade que tenho continua a ser com a Rita, que me põe um sorriso na cara por ser tão jovem como eu e por nos revermos nas mesmas histórias, memórias, recordações. Hoje fomos dar uma caminhada depois do jantar, conversar sobre tudo um pouco e sobre nada em especial. Daquelas caminhadas que nos fazem pensar no nada em que há para pensar. Sentámo-nos no muro da vinha, como de costume, e a Rita disse-me que ia ficar mais um mês. Fiquei feliz. Convidei-a a vir cá a casa sempre que quisesse. Gosto mesmo dela, não me faz sentir tão só.

Já tinha saudades deste Natal em Portugal, isto sim é um verdadeiro Natal em família, ainda que nenhum deles seja da minha família, fizeram-me sentir em casa e fazem-no a cada dia que passa. Só gostava que estivesses aqui também.

Irei parar durante um tempo de te escrever porque agora ando a fazer longos turnos noturnos na empresa e muitas vezes chego a casa demasiado cansado para te escrever, no entanto, tenho feito o esforço. Regresso quando os dias deixarem de ser tão curtos.

Do teu Afonso