AS FESTAS, OPORTUNIDADES DE CONTEMPLAÇÃO E ENCONTRO FATERNO
Padre Jorge Guarda
6.8.2025
As festas das comunidades cristãs podem ser olhadas e vividas de diferentes pontos de vista. Haverá quem nelas procure acima de tudo – e está certo – honrar os padroeiros e tudo fazem para dar prioridade a esse objetivo central. Outros privilegiam o encontro à mesa com familiares, amigos e conhecidos, e não é mau que se tenha essa experiência. Não falta também quem busque ouvir certo tipo de música e admirar os seus músicos preferidos. Cada qual tem os seus próprios desejos e fica contente se os consegue satisfazer.
Tivemos em Ourém, no passado fim-de-semana, as festas da nossa padroeira, Nossa Senhora da Piedade. O programa oferecido era variado e poderia satisfazer, em maior ou menor medida, os objetivos de quem procura este tipo de atividades religiosas. Da minha parte, para honrar Nossa Senhora, destaco dois elementos: a contemplação e o encontro, a componente artística e a experiência de encontro fraterno, a dimensão vertical de relação com a Mãe do Céu e a horizontal como confraternização.
Tivemos várias oportunidades de contemplar a imagem da padroeira: a conferência sobre as suas representações na arte, a exposição patente no salão nobre da igreja matriz com pinturas originais, a decoração floral da imagem de Nossa Senhora, as músicas executadas e cantadas no recital, nas procissões e nas celebrações litúrgicas e a harmonia como se procurou fazê-las. Na verdade, tudo pode e deve revestir-se de beleza, já que esta honra sobremaneira a Mãe do Céu, exprime e alimenta a fé e a devoção para com ela.
Considerando a beleza da imagem de Nossa Senhora da Piedade, pensei num texto que Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, escreveu ao contemplar na basílica de S. Pedro, no Vaticano, a famosa Pietà, do grande pintor Miguel Ângelo. A nossa Pietà pode não ser tão conhecida nem tão bela como aquela, mas a sua lição sobre a beleza pode servir também para nós. Escreve a autora esta oração:
“Madonna” bela de Michelangelo, estás naquela capela da basílica de São Pedro, e cada vez que te olho pareces mais bela. Passam-se dias, anos, séculos, e homens do mundo inteiro e de todas as épocas acorrem para te ver e tu deixas no espírito deles algo de sublime e suave. Dás a quem te admira uma sensação de felicidade: parece que tocas o âmago de toda alma humana, e este raio celeste, que parte de ti, atinge o centro imortal do homem, de todo homem, de ontem, de hoje, de sempre. Quando as tragédias do viver humano me entristecem, quando a televisão, com seus programas, me humaniza, mas não me eleva, quando o jornal com as suas crónicas sempre iguais me deixa melancólica, quando a dor me atormenta a alma e o corpo, olho-te e me sinto aliviada. Há em ti algo que não morre.
(…) Hoje, ao contemplar-te, “Madonna” bela, pensava: quão sublime e divino é o efeito de uma obra de arte. Testemunha a imortalidade da alma, porque se o objeto plasmado não morre, é arte justamente por ser imortal – isto é, não passa enquanto existir – quem te fez não pode morrer. Pareceu-me então que a arte se elevasse a alturas incalculáveis e a beleza fosse, assim como a verdade e a bondade, matéria-prima do reino celeste que nos espera, e tive a impressão de que, sem saber, os verdadeiros artistas têm uma missão apostólica. (…)
Foi isto que meditei diante de ti, “Madonna” bela de Michelangelo. E como a ti falei, a ti faço um pedido: olha os artistas, que te contemplam cada dia, com olhar materno, e sacia esta sede de beleza que o mundo sente. Manda grandes artistas, mas plasma com eles grandes almas, que, com o seu esplendor, encaminhem os homens ao mais belo dentre os filhos dos homens, o teu doce Jesus.”
A outra experiência da festa foi o encontro com várias pessoas, à mesa, no bar na quermesse ou noutro tipo de momentos em que nos cruzámos, saudámos e falámos. Pude ouvir as suas histórias e criar laços. Assim se enriqueceu a nossa comum humanidade. Este é um dos preciosos fios com que se tece uma festa. Decerto, a Mãe do Céu gosta de ver os seus filhos a conversar entre si e a conviver.
Não percamos a riqueza das nossas festas. Demos o melhor de nós mesmos e colaboremos para que estes eventos aconteçam e com eles se reforcem os laços fraternos e se honrem os padroeiros. Serão melhores as nossas comunidades!
