Dia de Portugal
Celebramos a 10 de junho do Dia de Portugal. É um feriado que já teve vários nomes, mas a ideia é celebrarmos aquilo que somos como povo.
Mas afinal o que é Portugal? Vale a pena, nestes tempos em que se quer invocar a “Pátria” para fins sinistros, pensar o que é Portugal e como tende a ser usurpado por quem acha que é dono de uma nação.
Portugal é território. Não foi sempre o mesmo território, foi variando ao longo dos séculos. Antes de se inventar Portugal, o território já existia. Havia a Lusitânia, depois império romano, reinos visigodos, reinos mouros, reconquista, por esta ordem. E quando Afonso Henriques “inventou” Portugal, o território ia até ao Mondego e depois até ao Tejo e mais para sul. Mais tarde Portugal já incluía o Algarve, e logo a seguir algumas cidades em Marrocos, Tânger, Ceuta. E ilhas atlânticas que se foram descobrindo, e o Brasil, África, Índia, extremo oriente. As fronteiras nunca foram as mesmas durante muito tempo e Portugal foi um território que pulsava onde chegassem os portugueses.
Portanto, Portugal é mais do que território, é comunidade. E agora, no presente, o que é Portugal? É território, bandeira, língua, hino e seleção, cultura que se expande pelo mundo e é povo. São pessoas que vivem neste território, mas também são pessoas que vivem em outros territórios, em França, no Canadá, no Japão. Gentes que usam a mesma língua e apoiam a mesma seleção, que se identificam com uma religião ou com religião nenhuma. Mas são pessoas que usam também outras línguas e admiram outras culturas, não há um padrão, um modelo absoluto.
Diziam os discursos do 10 de junho deste ano que não há sangue português puro, que somos uma mistura de todo o mundo. Mas isso é apenas simbólico, porque essa absoluta mistura não é apenas genética, essa libertadora falta de pureza, é sobretudo de culturas e mentalidades. Portugal é o produto de milhares de anos de história, em diálogo permanente de povos e nações. Somos um pouco mouros e somos um pouco orientais, além de sermos europeus, recebemos ao longo da história riquezas imateriais de todo o mundo. Seja na língua portuguesa que se enriqueceu com palavras novas em todas as épocas, em livros e canções, seja nas comidas que exportámos e que importámos, ou no jeito especial de fazer as coisas. Se a palavra “oliveira” nos veio do latim, a palavra “azeite” vem do árabe. Tal como é também do árabe a palavra “laranja”, para o fruto que levámos a outros povos, que o passaram o conhecer pelo nome “portukale”. A nossa verdadeira natureza é essa partilha, receber e dar.
Por isso me faz confusão essa agenda ideológica que nos quer impor um conflito entre “eles” e “nós”. Aceitar a ideia de que os “imigrantes” se opõem a nós ou que os nossos “emigrantes” se opõem aos costumes dos países em que vivem, aceitar essa ideia é como renunciar a ser português. Se somos, no presente, aquilo que somos é porque soubemos ensinar e soubemos acolher e aprender com o mundo inteiro. As ideologias nacionalistas um pouco por todo o lado querem acabar com o intercâmbio entre povos e nações, querem fronteiras fechadas sobre si mesmas, querem inventar uma pureza que nunca existiu. Querem restaurar pela violência o egoísmo. E isso é tudo o contrário do que é ser português.
Fernando Pessoa, poeta maior do nosso século XX, patriota exemplar, redefiniu o conceito histórico de Portugal como sendo o Quinto Império, uma civilização mítica que abdica do domínio material, para reinventar um reino espiritual, que vai para além das fronteiras, para além das circunstâncias históricas e transcende a cultura local, para ser verdadeiramente universal. O Quinto Império não existirá num local e num tempo em particular, existirá sempre na mente de quem se sentir cidadão do mundo.
Ao contrário dos que nos querem limitados e aprisionados num pequeno território à beira do Atlântico, “não há quem possa dizer que é mais puro e mais português do que qualquer outro”, como disse o presidente de Portugal no Dia de Portugal.
JF

