À deriva, mas com propósito 

Ana Freire

Frequentemente ouvimos que a juventude está perdida, sem direção, imersa no caos das redes sociais e desconectada da realidade. De certo forma posso até concordar… mas, ao mesmo tempo, discordo. O que é a juventude? Quem define os seus rumos e valores? Será que, ao rotular os jovens de “sem rumo”, não estamos apenas a refletir a nossa dificuldade em compreender os tempos que vivemos? Talvez sim. Talvez não. Não sei. 

Os nossos jovens enfrentam desafios únicos, completamente diferentes dos desafios das gerações anteriores. Para muitos deles, o fracasso não é só algo a ser evitado, mas um estigma que define a trajetória. Vivem sob uma pressão constante, alimentados por um mundo digital que nunca desliga, numa sociedade que muitas vezes não lhes dá espaço para errar, aprender ou crescer. Talvez não estejam perdidos. Talvez estejam apenas a procurar um novo caminho, que não tem de ser o que lhes foi imposto, a desenhar o futuro à sua maneira, mesmo que isso pareça desconcertante para muitos de nós. 

A curiosidade levou um grupo deles a perder-se, por altura da Páscoa, no norte do concelho. De bicicleta, uns, de carro com os pais, outros, foram “perder-se” em Rio de Couros, em busca de algo esquecido no tempo: as minas de carvão da Fonte da Moura. 

Imaginei-os a pedalar em grupo, como se saídos de um episódio de “Verão Azul”, procurando um vestígio da nossa história há muito esquecido. Não conheciam o local mas, num espírito de aventura, dirigiram-se ao restaurante Minas, e daí foram guiados até à Fonte da Moura; outros bateram à porta de habitantes locais e pediram orientações. Entre duas tesouradas, num cabeleireiro na Sandoeira, houve ainda informação e acesso a documentos sobre outras minas, as de Formigais, anteriores às da Fonte da Moura. 

Nunca ousei esperar que desse nisto quando, ao contar algumas histórias que ouvi na minha infância sobre o nossos mineiros, que tentei relatar fielmente, pedi uma tarefa simples que levasse à reflexão sobre a escassez de recursos naturais, o impacto ambiental associado à extração de carvão e ao consumo do carvão como combustível. Nessa reflexão tinham de incluir referências às antigas minas de carvão da Fonte da Moura. O que me trouxeram? Trabalhos maravilhosos, com fotos antigas e atuais do local, que revelam o passado esquecido daquele lugar que, por tanto tempo, povoou a minha imaginação. 

Se pensarmos bem, a busca destes jovens pela “Misteriosa Aldeia de Carvão” é, de certa forma, uma aventura no melhor estilo de Esteban, Zia e Tao, com o mesmo espírito de exploração e a promessa de um segredo há muito guardado, esperando para ser desvendado. Mas, aqui, não há cidades de ouro. Apenas há uma aldeia de carvão, cujo ouro escondido é a nossa história local, esperando para ser redescoberto por estes jovens, mais preciosos que o ouro!