Médio Tejo | Ourém lidera número de fogos na região 

O Médio Tejo registou 282 incêndios e cerca de 400 hectares de área ardida até 15 de outubro, quase quatro vezes mais do que em 2025. Apesar do agravamento dos números, a região alcançou uma taxa de sucesso de 99,64% no ataque inicial. Ourém liderou as ocorrências, com 65 incêndios, num balanço em que a falta de bombeiros e o peso dos fogos de origem intencional continuam a preocupar a Proteção Civil.

CARLA PAIXÃO 

Ourém foi o concelho do Médio Tejo com mais incêndios rurais em 2026, com 65 ocorrências registadas até 15 de outubro. Seguem-se Abrantes, com 63, e Tomar, com 56. No conjunto dos 11 municípios da região, o balanço do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) contabiliza 282 ocorrências e cerca de 400 hectares de área ardida, contra 206 incêndios e 113 hectares em 2025. 

Apesar do aumento do número de incêndios e da área ardida, o Médio Tejo alcançou uma taxa de sucesso de 99,64% no ataque inicial, colocando a sub-região na primeira posição nacional neste indicador. Apenas uma das 282 ocorrências demorou mais de 90 minutos a entrar em fase de resolução. 

Os números foram apresentados na sexta-feira, 16 de outubro, em Torres Novas, pelo Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil do Médio Tejo.  

“O balanço é extremamente positivo. Naturalmente, o nosso objetivo seria ter zero ignições e zero área ardida, mas isso era praticamente impossível numa região com cerca de 250 mil hectares de área florestal suscetível de arder”, afirmou David Lobato, comandante Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil do Médio Tejo. 

Taxa de sucesso de 99,6% no ataque inicial a incêndios 

O comandante destacou a capacidade de resposta dos meios de socorro. Segundo David Lobato, a rapidez de intervenção foi determinante para limitar a propagação dos incêndios, num contexto agravado pelas condições meteorológicas e pelos efeitos da tempestade Kristin. A passagem da depressão pelo território deixou numerosas árvores caídas e aumentou a acumulação de matéria combustível no solo, dificultando as operações de combate.  

“Ter uma taxa de sucesso de 99,64% no ataque inicial representa, acima de tudo, uma enorme responsabilidade para os próximos anos. Conseguimos limitar a dimensão das ocorrências e ficar numa posição muito favorável, tanto a nível regional como nacional”, afirmou o comandante. Neste indicador a sub-região do Médio Tejo ocupou a primeira posição nacional. 

A única ocorrência que ultrapassou os 90 minutos até entrar em fase de resolução deflagrou a 22 de agosto, em Mouriscas, no concelho de Abrantes. O incêndio consumiu cerca de 301 hectares e teve origem intencional.  

Ourém entre os concelhos com incêndios intencionais 

As causas humanas estiveram na origem da maioria das ocorrências registadas no Médio Tejo. Dos 282 incêndios, 149 foram classificados como negligentes, correspondendo a 53% do total, e 85 tiveram origem intencional, cerca de 30%. Em conjunto, estas duas categorias representam 83% das ocorrências. 

Ourém destaca-se pelo número de ignições, com 65 ocorrências registadas no concelho. Entre os casos investigados, 19 tiveram origem intencional e 37 foram atribuídos a situações de negligência. Em cinco ocorrências, não foi possível determinar a causa. 

David Lobato destacou, ainda assim, uma progressão positiva no que toca à atuação das autoridades policiais e à identificação de suspeitos. 

“Ourém, por exemplo, melhorou muito, houve aqui quatro ou cinco detenções”, afirmou o comandante ao Notícias de Ourém, sublinhando o contributo da Polícia Judiciária (PJ) e da Guarda Nacional Republicana (GNR) para esta evolução.  

De acordo com David Lobato, as forças de segurança têm mantido contactos regulares com a Proteção Civil, numa articulação que considera “importante para prevenir e combater os incêndios de origem criminosa”. “A origem intencional é particularmente preocupante porque nunca sabemos onde vai surgir a próxima ocorrência”, explicou, defendendo a continuidade da investigação e da colaboração entre as autoridades e os municípios.  

Já no caso dos incêndios por negligência, refere o comandante sub-regional, a sensibilização da população assume particular importância, sobretudo durante os trabalhos agrícolas e a realização de queimas. 

Falta de bombeiros limita capacidade de reforço 

A escassez de recursos humanos é outro dos problemas identificados por David Lobato. Apesar de o dispositivo ter assegurado uma resposta operacional elevada, o comandante sub-regional reconhece dificuldades em mobilizar reforços quando a dimensão dos incêndios exige mais meios no terreno, uma vez que o voluntariado depende da disponibilidade de pessoas com outras ocupações e responsabilidades. 

Para atrair novos elementos, defende a valorização da profissão e a criação de condições que permitam perspetivar um futuro profissional estável. “Não tenho uma varinha mágica, mas, uma das possibilidades passa por tornar a atividade mais atrativa e dar-lhe maior estabilidade. Precisamos de pensar numa carreira que permita às pessoas perspetivar um futuro profissional”, afirmou, considerando que o Governo deve continuar a trabalhar nesta matéria. 

Kits das juntas podem ajudar na primeira resposta 

Outro dos temas abordados durante a apresentação do balanço foi o papel das comunidades locais na prevenção e no combate inicial aos incêndios. David Lobato defendeu um maior envolvimento das juntas de freguesia e de outras estruturas locais, sobretudo nas zonas mais afastadas dos quartéis de bombeiros, onde a rapidez da primeira intervenção pode ser determinante. 

O comandante sub-regional destacou Abrantes como um dos concelhos onde as juntas de freguesia dispõem de kits de combate a incêndios, uma iniciativa que considerou importante alargar a outros territórios, com soluções adaptadas às características de cada região. 

O comandante ressalvou, porém, que a utilização destes equipamentos exige formação, proteção individual e conhecimentos sobre o comportamento do fogo. Sem preparação adequada, alertou, “em vez se encontrarmos uma solução, arranjamos mais um problema”. A articulação com os bombeiros e os responsáveis pelas operações é, por isso, essencial, podendo também os sapadores florestais contribuir para este esforço. 

Em 2026, informou o comandante, “não se registaram, felizmente, acidentes graves nem vítimas mortais entre os operacionais no Médio Tejo”. David Lobato destacou a segurança dos bombeiros como uma das prioridades do dispositivo, a par da redução do número de incêndios e da área ardida. 

Condições meteorológicas obrigaram a prolongar dispositivo  

Embora o dispositivo terrestre de combate a incêndios estivesse previsto terminar a 15 de outubro, as condições meteorológicas levaram a Proteção Civil a prolongar a operação até dia 21 de outubro. O dispositivo manteve-se reforçado, embora com menos meios do que no período de maior empenhamento. 

A decisão teve em conta as temperaturas acima da média para esta altura do ano e o elevado perigo de incêndio em praticamente todos os municípios da sub-região. Perante este cenário, o comandante apelou à população para adiar a realização de queimas, em particular as associadas às podas e à apanha da azeitona, atividades que geram resíduos vegetais cuja eliminação pode representar um risco acrescido. 

“Peço às pessoas que aguardem mais algum tempo antes de fazerem queimas. Sei que há trabalhos agrícolas que precisam de ser realizados, nomeadamente as podas e a apanha da azeitona, e que é necessário tratar dos sobrantes, mas façam-no com os devidos cuidados”, alertou. 

David Lobato recomendou a trituração dos resíduos vegetais como alternativa à queima. Nos casos em que esta seja indispensável, aconselhou a esperar por condições meteorológicas mais favoráveis, a cumprir as regras de segurança e a comunicar previamente a operação às autoridades.  

“A prevenção continua a ser essencial. Mesmo depois de uma época de incêndios com resultados muito positivos, não podemos baixar a guarda enquanto se mantiverem estas condições meteorológicas”, concluiu o comandante.