Imortalizar a Lelita
Com o concerto de homenagem aos 50 anos de carreira de Lelita a aproximar-se, o Notícias de Ourém foi ter com Maria Manuela Jorge, a figura icónica por detrás do programa “Olá, Olá, Bom dia, Bom dia” da ABC Portugal, para recordar uma vida preenchida pela música.
Eva Gomes
A Albardeira Associação Cultural e o Teatro Municipal de Ourém uniram-se para homenagear a carreira com mais de cinquenta anos de Lelita, num concerto com o grupo victoria, a decorrer no dia 19 de setembro, na Sala Principal do Teatro Municipal de Ourém.
Maria Manuela Jorge, mais conhecida por Lelita, aos 82 anos ainda faz o seu programa da ABC Portugal, todos os domingos. O programa matinal, que está no ar desde 1989, é composto por discos pedidos, música cantada pela radialista e conversa animada.
Para além do programa de rádio, Lelita conta com uma discografia composta por quatro álbuns, participa na Orquestra Típica de Ourém e no Chorus Auris e é madrinha do Rancho Folclórico “Lírios do Nabão”.
Uma mulher dada às artes, Lelita está sempre disposta a cantar para quem a quer ouvir. No próximo sábado sobe mais uma vez ao palco, numa celebração a si mesma e à música, como ela refere, na expectativa de “ser um concerto inesquecível”.
“Tenho muito que agradecer à rapaziada da Albardeira, que organizaram isto tudo e pelo entusiasmo que têm mostrado em todas as etapas de preparação”, declara a artista.
Sem querer revelar muito do que nos espera no grande concerto, Lelita abre porta à sua vida e convida-nos a conhecer a mulher por detrás da voz.
Sempre a cantar
Lelita abre-nos a porta de casa e chama os seus muitos gatos, para dar a conhecer a sua “bicharia”. Como se fossemos velhos amigos, convida-nos para entrar e mostra os cantos à casa, repletos de fotografias e quadros pintados pela nossa anfitriã.
O cabelo cor-de-rosa está um pouco desbotado, mas já tem marcação feita na cabeleireira para retocar e estar “fresquinha” para o concerto no sábado.
Maria Manuela Jorge é natural de Ourém. Viveu grande parte da sua juventude na Rua da Castela, na cidade de Ourém. Filha de pais separados, algo pouco comum na época, foi educada pela sua avó Joana.
“A minha avó costumava dizer-me para ir cantar para a porta de casa, porque os vizinhos queriam me ouvir”, conta Lelita. Não se recorda de quando começou a cantar, por ser algo tão natural na sua vida.
A música, e o cântico especialmente, faz parte da sua personalidade. Quando dá por si, está constantemente a cantarolar alguma música, preenchendo o silêncio com a sua voz memorável.
Relembra que na infância participou de um rancho criado pela sua avó, o Rancho da Castela, composto por vários elementos da sua família. É aí que começam as suas performances ao vivo.
Ao falar da sua juventude, Lelita fala do tempo que trabalhou com costura e outros trabalhos do género. Vinda de uma família humilde, começou a trabalhar cedo para ajudar no rendimento familiar.
Aos 20 e poucos anos, conhece Joaquim, o homem que viria a ser o seu futuro marido. De um namoro muito rápido (conheceram-se na festa da freguesia), decorre o casamento, aprovado pela sua avó.
“No meu dia de casamento a minha avó disse-me que agora já podia partir descansada porque eu tinha encontrado o meu marido”, comenta Lelita.
Maria Manuela e o seu marido seguem para o continente africano, para Angola. “Era muito diferente de Portugal, era tudo muito alegre”, descreve.
O que mais marcou as suas memórias da vida em Luanda é a música. “Havia muita animação, muita música a qualquer hora”, conta.
Por lá tira um curso de dactilografia, e passa a trabalhar em escritórios como dactilografa. É também em Luanda que nascem as suas três filhas mais velhas: Isabel, Sandra e Florbela.
“No início dos anos 70, a guerra começou a piorar, e a situação ficou muito mais perigosa em Luanda, portanto vim embora com as minhas filhas”, diz Maria Manuela. Em 1972 retorna a Portugal, ao concelho de Ourém, para uma vida “um pouco diferente”.
“A diferença não foi gritante porque lá também não tínhamos grandes posses, não eramos “senhores” por assim dizer”, refere.
Retornada, vai viver para perto dos sogros, na Atouguia. É já em território lusitano que nasce Maria João, a sua filha mais nova.
Desses tempos, recorda com muito carinho a infância das filhas e os momentos felizes ao seu lado. As fotografias que tem espalhadas pela casa das filhas e dos netos demonstram o verdadeiro orgulho e dedicação que tem por eles.
Maria João conta ter muito orgulho de ser filha de uma mulher como Maria Manuela. “Adoro a minha mãe, e sinto que hoje estou muito parecida à minha mãe”, descreve. “Para onde vou é como a marca Coca-Cola, toda a gente me conhece porque sou filha da Lelita”, conta a filha.
A certa altura, Lelita começa a cantar em festas populares, num estilo de música ligeira popular, e leva a sua filha Maria João. É aqui que a sua fama começa a solidificar-se.
Edita quatro álbuns, entre 1987 e 2010. Nesse período, viaja pelo mundo, a países como Alemanha e Brasil, onde dá a conhecer a sua discografia. O álbum “Sonho”, de 2002, leva a que Lelita vá numa digressão internacional, levando consigo a sua filha Maria João, que tem uma música cantada por si no CD.
No auge da sua carreira, Lelita não deixa de ser uma “pessoa com bom coração”. Maria João recorda que muitas das vezes “a minha mãe não cobrava pelos concertos, pedia apenas jantar para ela, para mim e para o meu pai e nada mais”.
Mas a música não é a sua única paixão. Apaixonada por tudo o que é arte, descobriu o gosto pela pintura em 2020. A sua casa encontra-se repleta de quadros da sua autoria, numa mancha de cores, figuras e traços que compõe o imaginário desta artista multifacetada.
“Gosto de cantar, gosto de pintar e gosto de tudo o que é arte”, conclui Maria Manuela.

