Ourém | Novo ponto de água na Urqueira reforça defesa da floresta  

A freguesia de Urqueira, Ourém, vai contar com um novo ponto de água integrado na Rede de Defesa da Floresta Contra Incêndios, um investimento considerado estratégico para o reforço da capacidade de combate a incêndios e proteção do território. 

CARLA PAIXÃO 

O projeto resulta de um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Ourém e a Junta de Freguesia de Urqueira, assinado no passado dia 8 de maio, que prevê um apoio municipal até ao montante de 113.101,14 euros, destinado a financiar parcialmente a construção de uma charca na Rua do Pisão, no lugar de Cavadinha. 

Mais do que uma obra de infraestrutura, o projeto é apresentado por Orlando Cavaco, presidente da Junta de Freguesia da Urqueira, como o culminar de um processo previsto há vários anos: “Foi uma promessa eleitoral e, quando assumimos funções, no final de 2017, este foi um dos projetos em que começámos imediatamente a trabalhar.” 

A escolha da localização assentou em critérios técnicos e de segurança. “A localização escolhida foi o lugar da Cavadinha, essencialmente por duas razões, a existência de água em quantidade suficiente para abastecer a infraestrutura e as condições de segurança que o local oferece aos meios aéreos”, explicou o autarca ao Notícias de Ourém, sublinhando que as operações de apoio ao combate a incêndios exigem uma avaliação rigorosa do terreno. 

“As operações de recolha de água por helicópteros envolvem riscos para os pilotos, para as aeronaves e também para as pessoas no solo, pelo que a escolha deste espaço assegura as melhores condições de segurança para todos os intervenientes”, acrescentou o presidente da Junta. 

O processo implicou ainda a aquisição de terrenos ao longo de vários anos. “Numa primeira fase, foi necessário proceder à aquisição dos terrenos indispensáveis à concretização desta obra, um processo que se prolongou durante alguns anos”, referiu Orlando Cavaco, acrescentando que a área de intervenção ronda os 2.500 metros quadrados. 

O investimento global ultrapassa os 100 mil euros. “A Junta de Freguesia já investiu cerca de 15 mil euros na aquisição dos terrenos e no projeto”, adiantou Orlando Cavaco, referindo que a obra está orçada em cerca de 109 mil euros, acrescidos de IVA. 

O autarca sublinhou ainda a importância do apoio municipal, que permitirá assegurar o financiamento de 85% da obra, cabendo à Junta o valor remanescente.  

Mas, antes do arranque das obras, o processo ainda terá de ser submetido à apreciação da Assembleia de Freguesia, “o que deverá ocorrer durante o mês de junho”, antecipa o autarca, acrescentando que, após essa fase, serão lançados os respetivos procedimentos concursais. 

Quanto aos prazos, a expetativa é de celeridade. “Uma vez aprovado (…) Caso os procedimentos decorram dentro da normalidade e existam empresas disponíveis para executar a obra, desejamos que o ponto de água esteja operacional e ao serviço da Proteção Civil o mais rapidamente possível”, afirmou o autarca, não se comprometendo com datas exatas. 

70% do território ocupado por área florestal 

A importância deste investimento revela-se particularmente evidente numa freguesia de grande densidade florestal. O autarca explica porquê. “Somos uma freguesia marcadamente florestal, com cerca de 70% do território ocupado por mancha verde. A nossa floresta é composta maioritariamente por pinheiro-bravo e eucalipto, apresentando também algumas manchas de carvalho e vegetação arbustiva típica desta região. É uma paisagem riquíssima, mas que, pela sua densidade e orografia, apresenta uma elevada vulnerabilidade, sobretudo aos incêndios, e nos obriga a uma vigilância e planeamento constantes.” 

Também a realidade pós-tempestade, veio agravar o cenário. “A destruição da floresta foi absolutamente devastadora. A tempestade Kristin veio obrigar-nos a reforçar significativamente a atenção e os meios dedicados à proteção da floresta”, referiu Orlando Cavaco, apontando a necessidade de intervenção contínua no território. 

Em termos operacionais, a nova infraestrutura permitirá melhorar a eficácia do combate aos incêndios. “A eficácia no combate aos incêndios depende da rapidez e da proximidade da água. Este novo ponto de água na freguesia permitirá aos meios aéreos reduzir os tempos de reabastecimento e atuar mais rapidamente”, explicou Orlando Cavaco, sublinhando ainda que o equipamento se articula com outros já existentes no território. 

O autarca esclarece que este investimento tem um impacto que ultrapassa a freguesia. “Como já temos outro ponto de água na Amieira, com este reforço, aumentamos significativamente a capacidade de resposta e a segurança do território”, afirmou, acrescentando que a integração na rede nacional permite reforçar a proteção a nível concelhio, não se limitando ao espaço geográfico da Urqueira. 

Investir na proteção da mancha verde e valorizar a floresta 

Orlando Cavaco destacou ainda outras intervenções em curso na freguesia no âmbito da gestão e prevenção florestal, nomeadamente a manutenção de caminhos e o desenvolvimento de projetos de prevenção. Refira-se que a freguesia de Urqueira possui cerca de 200 quilómetros de caminhos florestais. 

O autarca adiantou que está prevista a substituição do ponto de água existente no Parque de Merendas da Amieira por uma infraestrutura “mais moderna e com uma localização melhorada”, integrada no projeto de requalificação daquele espaço, já aprovado. 

Nos últimos oito anos, a Junta de Freguesia, com o apoio da Câmara Municipal, estima ter investido “mais de 130 mil euros na manutenção e limpeza de caminhos florestais e vicinais”. Ainda assim, o autarca reconhece as dificuldades associadas à dimensão do território. “Sabemos que é impossível manter todos os caminhos em condições ideais”, afirmou, apelando a um esforço conjunto entre entidades, proprietários e população. 

Orlando Cavaco destacou ainda o trabalho desenvolvido pela ADN – Associação de Desenvolvimento Serras do Norte de Ourém, que envolve o Município de Ourém e as freguesias de Urqueira, Espite, Rio de Couros e Casal dos Bernardos, com o objetivo de melhorar a gestão e a defesa da floresta contra incêndios. Segundo o autarca, estão em causa “mais de 4 milhões de euros para projetos financiados a 100%”, considerando que dificilmente os proprietários voltarão a dispor, nas próximas décadas, de tantos recursos financeiros para transformar o território e reduzir o risco de incêndio. 

Refletindo, o autarca apontou como principais preocupações o abandono da floresta, a fragmentação das propriedades e o envelhecimento da população, fatores que dificultam a limpeza regular dos terrenos. Alertou ainda para a acumulação crescente de carga combustível no território, agravada pelos efeitos da tempestade, considerando que estes desafios obrigam a freguesia a manter-se “em alerta máximo”. 

O presidente recorda também que os incêndios deixaram de ser um fenómeno exclusivo dos meses de verão, tornando-se uma ameaça ao longo de todo o ano. “É, por isso, absolutamente essencial a colaboração dos proprietários, para que procedam frequentemente à limpeza dos seus terrenos e do material lenhoso”. 

Para Orlando Cavaco, a prevenção dos incêndios exige uma estratégia contínua e não pode limitar-se ao período crítico do verão, devendo assentar numa intervenção permanente no território, através do planeamento, da limpeza e da gestão florestal. A médio prazo, defende o apoio a projetos integrados de gestão da paisagem e uma floresta “mais organizada e resiliente”. Já a longo prazo, considera fundamental sensibilizar as novas gerações para o valor económico e ambiental da floresta, que deve ser vista “como um recurso estratégico que importa valorizar, gerir e proteger”.