“Empresários do Centro: o que precisamos para a próxima década?”
Por altura do seu 80º aniversário, a ACISO realizou mais um jantar-conferência, desta feita subordinado ao tema “Empresários do Centro: o que precisamos para a próxima década?” O XXI Encontro de Empresários, teve lugar na Escola de Hotelaria de Fátima, tendo como oradora principal Ana Mendes Godinho para quem a palavra-chave, para os próximos tempos, é a “Confiança”
Aurélia Madeira
O primeiro a usar da palavra no jantar conferência da ACISO – Associação Empresarial Ourém – Fátima, foi o seu presidente, Pedro Mafra, que começou por considerar os muitos desafios que os empresários enfrentam.
“Depois de anos marcados pela pandemia, por fortes pressões inflacionistas e por um contexto internacional cada vez mais instável”, afirma, “as empresas continuam hoje confrontadas com desafios estruturais importantes: a escassez de mão-de-obra qualificada, a necessidade de reforçar a produtividade, a transição digital, as exigências da sustentabilidade e uma concorrência cada vez mais global”. Desafios a que vêm agora juntar-se “novos fatores de incerteza internacional”, com “as guerras em curso”.
Pedro Mafra recorda que “sempre que aumenta a instabilidade internacional, os seus efeitos acabam, inevitavelmente, por ter com impacto direto nas empresas, nos seus custos, nos seus investimentos e nas suas decisões”.
Por isso, afirma o responsável, neste “tempo de incerteza e mudança, a ACISO assume-se como um parceiro das empresas, procurando transformar desafios em oportunidades e criar condições para reforçar a competitividade do nosso tecido empresarial”.
Pedro Mafra destaca algumas das ações que a ACISO tem vindo a desenvolver para apoiar o tecido empresarial do concelho de Ourém, afirmando que a Associação continuará a apoiar as empresas, mas acreditando que “o futuro se constrói em parceria entre todos aqueles que acreditam no potencial deste território”.
A resiliência dos oureenses
O presidente da Câmara Municipal de Ourém recorda os “momentos difíceis que passámos” em tempos de pandemia, para dizer a Ana Mendes Godinho, enquanto Secretária de Estado do Turismo, sempre esteve “ao nosso lado, a dar-nos a força necessária para avançarmos, para continuarmos a trabalhar neste projeto religioso que hoje é um projeto consolidado, é um projeto que já é conhecido a nível nacional como um produto muito importante e estratégico do nosso país”. Luís Albuquerque refere-se aos Workshops de Turismo Religioso, que a governante apoiou, mas também à criação dos Caminhos de Fátima, em que esteve fortemente envolvida.
Albuquerque agradece também ao Santuário, na pessoa do seu representante ali presente, o padre Miguel Souto Maior, pela “ajuda que nos deu nos momentos difíceis e terríveis que tivemos muito recentemente”, referindo-se à tempestade Kristin, pelo facto de o Santuário, ter acolhido, “durante muitos dias, muitos daqueles que vieram de longe para nos ajudar a recuperar o Concelho”. Um agradecimento que o autarca acaba por estender a todos, ACISO e empresários que, diz, “nos ajudaram a recuperar aquilo que perdemos. Nesses momentos difíceis”, continua Albuquerque, “foram os empresários, nomeadamente os mais ligados à construção, que nos ajudaram rapidamente, para que pudéssemos, pelo menos, ter um concelho transitável”.
Quanto ao que “possa acontecer na próxima década, Luís Albuquerque diz que “os municípios têm como obrigação proporcionar boas condições para que os empresários possam continuar a trabalhar, possam continuar a gerar riqueza, possam continuar a gerar emprego”.
Para o presidente da Câmara Municipal de Ourém, a capacidade das empresas de se reerguerem, póstempestade, é prova “daquilo que nos define, que é esta resiliência, esta força interior”.
Albuquerque aproveita ainda para falar dos parques industriais do concelho em crescimento, bem como da anunciada ligação da zona industrial de Vilar dos Prazeres ao nó dos Toucinhos do IC9.
Uma zona Industrial de que recorda os tempos áureos e a sua decadência, em 2013, para dizer que, “hoje, com áreas mais diversificadas, não só relacionadas com a madeira, temos, praticamente, todos os pavilhões ocupados”.
Refere Fátima, “onde temos já também uma zona industrial, junto à A1”, que vai ser dotada de infraestruturas, para ali se instalarem empresas.
“Os melhores resultados surgem quando há objetivos comuns, confiança e verdadeira articulação entre setor público e setor privado”
Confiança é a palavra-chave para preparar o futuro, acredita a deputada, ex-Ministra do Trabalho e ex-Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho. Terá sido, aliás, na sua função de Secretária de Estado do Turismo que, a agora deputada, recebeu mais elogios e também aí encontrou os exemplos em que baseou a sua intervenção.
Desde logo, defendeu uma maior confiança entre o Estado e as empresas, porque, dando exemplos concretos da sua experiência governativa, diz que “os melhores resultados surgem quando há objetivos comuns, confiança e verdadeira articulação entre setor público e setor privado”.
Apontando Fátima e a ACISO como exemplos de “visão, persistência e cooperação estratégica”, recorda o papel que tiveram na afirmação do turismo religioso em Portugal e na sua projeção internacional. Aponta vários momentos do seu percurso e defende que “a ambição, quando acompanhada de foco e planeamento, produz resultados concretos”. Como exemplos disso, refere o trabalho desenvolvido na valorização dos Caminhos de Fátima, bem como o reforço dos Workshops Internacionais de Turismo Religioso.
Ana Mendes Godinho identifica também grandes desafios estruturais da próxima década. Desde logo, o desafio demográfico, marcado pelo envelhecimento da população, pela baixa natalidade e pela necessidade de preparar o país para uma sociedade com mais pessoas idosas e menos ativos disponíveis. Assim, apontou a importância do trabalho dos imigrantes para sustentar a economia, o mercado de trabalho e a Segurança Social, defendendo modelos de integração mais eficazes, parcerias com os países de origem e respostas mais organizadas de recrutamento e qualificação.
Relativamente ao impacto da transição para o digital e para a inteligência artificial, a antiga ministra considera tratar-se de algo irreversível, mas alerta para a necessidade de capacitar trabalhadores e empresas, particularmente as micro e pequenas, para que consigam tirar verdadeiro partido desta transformação.
Por outro lado, apontou também a transição ambiental e as alterações climáticas como um dos “grandes desafios do presente”, lembrando a “vulnerabilidade dos territórios a fenómenos extremos e a necessidade de reforçar a resiliência coletiva”.
Num outro plano mais individual, Ana Mendes Godinho acredita que, hoje, mais do que o salário, “as pessoas procuram bem-estar, sentido de pertença, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, flexibilidade e propósito”. Defende, por isso, relações laborais “capazes de responder às novas gerações, mas também aos trabalhadores mais velhos”, propondo medidas como o reforço da ligação entre estudantes e empresas, o teletrabalho, a reforma a tempo parcial e a valorização da transmissão de conhecimento entre gerações.
Porque tudo isto se deve basear na confiança, Ana Mendes Godinho defende, afincadamente, a existência de “pactos setoriais, institucionais e territoriais que permitam ultrapassar a inércia e o excesso de burocracia, respondendo com pragmatismo aos problemas concretos do país. Afirma que Portugal precisa, “urgentemente, de uma cultura de compromisso, execução e confiança”, e apontou Fátima como um território especialmente bem colocado, para ser palco de novas respostas, novas ideias, deixando como exemplo, a realização de “Encontros de Paz”, capazes de “afirmar consensos, reforçar a coesão e colocar o país em primeiro lugar”.

