XIII edição dos Workshops Internacionais de Turismo Religioso
Fátima: “um lugar que se vive”
“Os Lugares de Fé: Memória, Espiritualidade e Experiência do Peregrino”, foi o tema, deste ano, da XIII edição Workshops Internacionais de Turismo Religioso.
Proferida por Marco Daniel Duarte, historiador de arte e diretor do Museu do Santuário de Fátima, a conferência passou pela história do lugar, mas também pelo lugar que Fátima ocupa em cada um dos milhões de peregrinos/ turistas que ali se deslocam anualmente
Intitulada “Os lugares de Fé — memória, espiritualidade e experiência do peregrino em Fátima”, a conferência apresentou o Santuário como destino de Fé, na XIII edição dos Workshops Internacionais de Turismo Religioso.
Nascido do fenómeno das Aparições de 1916–1917, o Santuário de Fátima desenvolveu-se a partir de um património material e imaterial único, afirmando-se hoje como um dos mais relevantes destinos de peregrinação da Europa e do mundo. Através da sua história, da mensagem e dos lugares que lhe estão associados, Fátima proporciona aos peregrinos e visitantes uma experiência profundamente espiritual, cultural e humana e isso mesmo esteve na base da conferência de Marco Daniel Duarte.
O Historiador começou por reconhecer que, não sendo um dos locais de maior peregrinação o mundo, já que esses se encontram na América do Sul (Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no México, e Santuário Nacional de Aparecida, no Brasil), Fátima é, com certeza, um dos mais visitados e importantes da Europa. Seis milhões e meio de visitantes atestam isso mesmo e essa é, acredita, apenas “uma pequena parte” de quantos ali se dirigem, em peregrinação. É que o Santuário apenas contabiliza os grupos organizados. Todos os outros, incluindo os turistas, que Marco Daniel não diferencia, grandemente, dos peregrinos, são muitos mais.
Memória de tempos difíceis
O diretor do Museu do Santuário começou por falar do “altar do mundo a partir da memória que vem do passado”, numa” época de dificuldade em compreender a fé religiosa, quando se vivia em plena guerra mundial, com a participação de soldados portugueses. Um momento, afirma, em que “acontece, em Fátima, algo imprevisível”, quando “o protagonismo surge, não da esfera política, mas de três crianças”, e que acaba por se espalhar pelas esferas políticas e sociais.
Globalização e mensagem de paz
Mas se tudo acontece em 1916-1917, “só em 1930, D. José Alves Correia da Silva, chancela o testemunho das crianças”, nascendo então uma “pequena capela” que acabaria por dar origem ao grande Santuário que prova a “globalização de Fátima à escala mundial”.
Esta internacionalização de Fátima já não é só a de um lugar, mas também, e sobretudo, a de “uma mensagem que se faz peregrina no mundo”. Prova disso são as viagens da Virgem Peregrina de Fátima, a partir de 1947, que têm levado imagens de Nossa Senhora do Rosário de Fátima a todos os continentes, e a múltiplos contextos culturais, com uma mensagem de paz. “O fenómeno de Fátima não é já uma peça histórica, não é uma questão do passado, é também presente e futuro”, afirma Marco Daniel.
Espiritualidade e experiência
No que toca à espiritualidade, o historiador apresenta-a não apenas como oposição à guerra, mas também como uma experiência pessoal, interior, “que se vive quando estamos a caminho”. O diretor do museu do Santuário não tem dúvidas que “a experiência de Fátima é única, mesmo que tenha reproduções noutros lugares do mundo”.
Apontando a peregrinação como metáfora da própria vida, cita Gabriel Marcel que, em 1944, dizia que “ser é estar a caminho”. Daí a defesa de que não há que fazer grande distinção entre peregrino e turista, em Fátima. Todos percorreram o caminho que ali os levou em busca de algo, num caminho, (cuja viagem é efémera, como a vida) mas onde a chegada é local de encontro, com os outros, mas também connosco próprios.
“Fátima é um lugar que se vive”
“Fátima é um lugar que se vive, afirma o conferencista. O peregrino de Fátima caminha em grupo e, ao chegar, existe a festa da fraternidade”, porque “Fátima não se entende sem laços de irmandade”. Ela é, também, “lugar de oração individual; de adoração; de experienciar a cura física, mas, sobretudo, espiritual; de reconciliação (com Deus e com os seus irmãos)”. É também “lugar de escuta; de experiência do silêncio; de prática penitencial; de igreja, enquanto instituição”, mas é, igualmente, um “lugar materno” que nos traz a ideia do feminino, ligado à fertilidade. Por outro lado, Fátima é “lugar de história, de arte, de cultura, de música, de novas linguagens, de paisagem natural, de memória, de interpretação qualificada”. O historiador recorda, a este respeito, que “o caminho muito específico do peregrino” foi registado ou descrito, ao longo do tempo, por diversas artes, desde a literatura, à pintura, à fotografia. Ou seja, peregrinos encerram, eles próprios, a sua experiência única, captada em Fátima, por vezes de forma mais profunda, pelo olhar dos fotógrafos e, finalmente, é também lugar de compras e recordações. Para Marco Daniel estas compras e recordações não são, apenas, uma questão de negócio. “Os peregrinos querem levar Fátima consigo”, afirma. Já “os primeiros peregrinos levavam raminhos de oliveira, depois apareceram os objetos, não apenas para si, mas para os seus”. É por isso, considera, “que os objetos têm que ser baratos”, porque eles “vão para a casa de todos: ricos ou pobres, famosos ou anónimos”.
O Santuário de Fátima, conclui, “é lugar de Fé, das mais diversas experiências de cada peregrino, das multiplicidades de milhões de peregrinos que o visitam, ano após ano, e nele vivem a sua experiência de Fátima”.
AM

