Não me conformo

Editorial por JF

Ontem uma notícia apresentava o comissário europeu Apostolos Tzitzikostas preocupado porque as vias de comunicação europeias não estão devidamente preparadas para uma guerra. Que as estradas e pontes não aguentariam a passagem de tanques. A deslocação de máquinas de guerra enfrentaria bloqueios por os túneis serem estreitos, e por as pontes não aguentarem o peso das colunas de blindados.

A Europa está pronta para aplicar 17 mil milhões de euros a melhorar as acessibilidades, a pensar num cenário de guerra. Até mesmo a nova ponte sobre o Tejo, prevista no contexto da linha de alta velocidade, é considerada neste “novo” critério de “defesa estratégica”.

Não! Não me conformo.

A narrativa de guerra está a ser disseminada intensamente, quando o que menos precisamos é de consolidar uma mentalidade belicista. Querem impor-nos, para já, a suposta inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, a seguir vão tentar convencer-nos da necessidade dessa guerra e finalmente da sua “utilidade”. Não aceito. Não aceito que me obriguem a pensar que uma guerra é útil ou necessária.

As infraestruturas devem ser melhoradas, sim, mas a pensar na paz e no desenvolvimento. Não é a pensar nos tanques que devemos imaginar as pontes. É a pensar nas pessoas que todos os dias lá precisam de passar. As relações internacionais devem basear-se na cooperação e na confiança. Mas algo de sinistro anda no ar, como se a catástrofe estivesse a ser cozinhada nos bastidores, intencionalmente, metodicamente.

A América, que conhecíamos pelos ideais de liberdade, transformou-se num exemplo de intolerância com os estrangeiros, com todos os países, cheia de tarifas, num exemplo de impunidade para grandes criminosos, de perseguição à imprensa livre e às universidades. E a Europa deixa-se arrastar por um discurso inaceitável de branqueamento da violência. E o mundo deixa-se encantar por pesadelos de egoísmo, do “nós contra todos os outros”.

Gaza vai acontecendo perante os nossos olhos: apoio humanitário que é bloqueado, pessoas que morrem à fome, inocentes que são massacrados em filas de espera por um pouco de comida. E o comissário europeu está preocupado porque os tanques de guerra podem não caber nos nossos túneis?

Não me conformo.

Por isso transporto o meu pensamento para Roma, para o movimento que o Jubileu da Esperança propõe aos povos de todo o mundo. Por estes dias reúnem-se lá meio milhão de jovens de todo o planeta, que não levantam barreiras fronteiriças, mas que levantam bandeiras de todos os países em igualdade. Porque ter orgulho na nossa bandeira não nos obriga a rebaixar as bandeiras dos outros, elas podem ser levantadas todas em conjunto, cooperando para o bem comum. Gostar da nossa terra não pode implicar odiar os estrangeiros, deve, pelo contrário estimular-nos a saber bem receber quem vem de fora.

Não precisamos de doutrinação sobre guerra, não precisamos de nos mentalizar para desenvolver uma economia militarista. Não fico entusiasmado com os investimentos em fábricas de drones militares.

Fico entusiasmado é com as possibilidades que se abrem quando jovens de toda a terra se congregam numa cidade para imaginar um futuro de esperança.