SEM MEMÓRIA E RECONHECIMENTO, NÃO TEMOS FUTURO

Padre Jorge Guarda

29.07.2025

Muita gente vive de tal modo absorvida com o presente e o futuro imediato que esquece o passado que lhe trouxe o que é hoje e está recheado de sementes que darão frutos no futuro. Sem memória e reconhecimento do passado, não temos futuro. O que temos e somos hoje recebemo-lo de quem nos precedeu. É da herança do passado que aprendemos o que sabemos e adquirimos capacidade de inovar para melhorar a vida e construir um futuro acolhedor para quem vem depois de nós.

Há hoje pessoas empenhadas em apagar os rastos da sua existência. Por isso pedem que as suas cinzas sejam espalhadas na terra ou no mar. Não querem deixar memória de si. Julgam que quem cá fica não precisa de sinais que testemunhem a vida de quem os precedeu. Por outro lado, nota-se que muitos esquecem depressa quem lhes deu vida e os precedeu. Outros, porém, constroem memoriais a lembrar figuras marcantes do passado, para que não fiquem esquecidas.

Na sua última mensagem aos jovens para a Jornada Mundial de Juventude de 2013, o Papa Bento XVI escreveu: “Aconselho-vos a guardar na memória os dons recebidos de Deus, para poder transmiti-los ao vosso redor. Aprendei a reler a vossa história pessoal, tomai consciência também do maravilhoso legado recebido das gerações que vos precederam: tantos cristãos nos transmitiram a fé com coragem, enfrentando obstáculos e incompreensões. Não o esqueçamos jamais! Fazemos parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que nos transmitiram a verdade da fé e contam connosco para que outros a recebam” (Mensagem de Bento XVI, 18-10-2012).

E o atual Papa Leão XIV, na mensagem para o recente V Dia mundial dos Avós e dos Idosos, escreveu: “Só se compreende a vida da Igreja e do mundo na sucessão das gerações. Por isso, abraçar um idoso ajuda-nos a entender que a história não se esgota no presente, nem em encontros rápidos e relações fragmentárias, mas se desenrola rumo ao futuro. No livro do Génesis, encontramos o comovente episódio da bênção dada por Jacó, já idoso, aos filhos de José, seus netos: as suas palavras os exortam a olhar com esperança para o futuro, como o tempo das promessas de Deus (cf. Gn 48, 8-20). Portanto, se é verdade que a fragilidade dos idosos precisa do vigor dos jovens, é igualmente verdade que a inexperiência dos jovens precisa do testemunho dos idosos para projetar o futuro com sabedoria. Quantas vezes os nossos avós foram para nós um exemplo de fé e devoção, de virtudes cívicas e compromisso social, de memória e perseverança nas provações! A nossa gratidão e coerência nunca serão suficientes para agradecer este bonito legado que nos foi deixado com tanta

esperança e amor.” (Mensagem para o V Dia mundial dos Avós e dos Idosos, 26.06.2025).

Tudo isto vem a propósito da iniciativa que tivemos na nossa paróquia de fazer memória dos nossos “santos ao pé da porta”, no passado sábado, no cemitério. Identificámos 88 pessoas que, com a sua vida, trabalho e exemplo contribuíram para edificar a paróquia que temos hoje. Uns foram párocos, outros catequistas, sacristães, animadores de jovens ou da liturgia, gente que praticou, abnegada e generosamente, o serviço e a partilha de bens aos outros, pessoas que assumiram funções administrativas e cuidaram do património das várias comunidades da paróquia. Numa palavra, foram pessoas que deixaram marcas. Por isso, as quisemos lembrar, com reconhecimento e gratidão. Na celebração, não estavam muitas pessoas. Será por falta de memória e gratidão de quem serviu a comunidade, ou por qualquer outro motivo. Deveremos pensar a forma como podemos tornar mais participativa esta celebração. Os nossos “santos ao pé da portam merecem”. E nós precisamos de reconhecer e continuar a contar com a sua ajuda espiritual na nossa caminhada comunitária.